sexta-feira, 11 de junho de 2010

Um vulto e teu rosto





Um vulto e teu rosto





Teu é meu bom dia

E o doce chocolate 

Que meu olhar enxerga
Na vitrina da saudade
Teus são todos os meus sonhos 
Os bobos e os mais secretos
E o sorvete suave e macio
Tentando fazer do sonho
Um acaso real e concreto
Teu é o pulo de meu coração 
Quando em meu caminho 
Um vulto lembra teu rosto
Que vejo em meio a multidão
Teus são meus pensamentos
Pois o amor aninhou-se em meu peito
E nele se faz presente
Em todo e qualquer momento

Causalidade


Causalidade

Agora neste exato instante,
Em que lês estas palavras
Um corpo voa e se esfacela
Tingindo de rubro vivo
O concreto cinza que o recebe
Um louco pede, pede e pede
Nascem milhares de seres
Por sob e por sobre o mundo
Morre, na alma e no coração, 
O desejo de um corpo vagabundo
Alguém, embora livre, que fugir
Uma flor, indecente, se insinua ao sol
Quer ser fruto, quer parir
Uma planta morre de sede
Um animal morre de fome
Se esvai o sêmen de um homem
Agoniza uma doce esperança
Uma mulher geme em gozo
Se contorce e explode em êxtase
Morre, abandonada, uma criança
E nada, absolutamente nada,
Faz diferença alguma para o mundo, 
Tampouco para a inflexível vida
Que segue impassível e inexplicável
Com passo firme rumo ao não sei onde
Lançando ao solo nosso sonho moribundo

Palavras de Amor



Palavras de Amor





Sou independente de minha vontade 
Tomada por um sentimento intenso
Que não se queda ante as agruras da vida
E não esmaece diante do rigor do tempo
Emoção eterna no vibrar constante do coração
Diante de um simples toque de tua mão
Alma contente ao vislumbre de tua imagem
Amor latente e sempre presente
Na tua ausência só morta paisagem 
Apenas escuridão na solidão de palavras
Que meus ouvidos atentos não ouvem
Pois tua boca nada pronuncia
Palavras que minha alma balbucia
Numa prece muda e solitária 
Ao Deus das noites e dos dias



quarta-feira, 9 de junho de 2010

Promessa



Promessa


Calma... Nada é para já...
O amor é eterno e infinito
A verdade mesmo,
É que o tempo não existe
E quando acordarmos
O vento do amanhã
Abrirá seus olhos e verá a nós
E quando despertarmos
O espaço infinito
Abrirá seus braços e nos arrebatará
E quando estivermos
Despertos e lúcidos
Verei a luz de teus olhos
E te reconhecerei na imensidão
De todos os outros olhos
Porque minha alma conhece a tua
Dentre todas as almas
E ainda assim te amarei
Mesmo que continues ausente
De meu tempo e de meu amor

Encontro na madrugada













Encontro na Madrugada

Estacionou o carro defronte sua casa com a certeza de que aquela seria 
uma sexta feira diferente. Vagarosamente entrou em casa e quando 
beijou sua esposa, sentiu apenas o gosto da rotina estática, e 
novamente pensou que a noite haveria de ser diferente, haveria 
de ser recheada por uma mudança radical. Já sabia todas as falas 
e as discussões que se sucederiam, desde a escolha do sabor da
pizza (que sempre acabava no mesmo pedido) como também da 
disputa entre os filhos, sobre quem usaria o seu carro naquela sexta 
de baladas sempre imperdíveis. Subiu a escada ao som da voz da 
mulher indagando o sabor que comeriam naquela sexta feira e 
simplesmente ignorou sua indagação e ao abrir a porta de seu 
quarto ouviu o início das falas entre os filhos sobre quem iria onde. 
Fechou a porta, jogou o celular e os cigarros sobre a cama, retirou o
relógio de pulso com cuidado – seu grande e fiel aliado – e sentou-se 
na cama macia. Pensava absorto na noite que se iniciava quando foi 
banhado por uma torrente quente, forte e farta, que inundou 
vigorosamente sua cabeça, desceu pelo seu corpo abaixo e 
instantaneamente teve uma vontade enorme de sair correndo. 
Ouviu novamente os chamados da esposa, dos filhos e 
instintivamente correu, abriu a janela, pulou a sacada, o muro, 
alcançou a calçada, surpreendendo-se consigo mesmo pela 
agilidade que sequer imaginara possuir. Só queria fugir. Só queria 
correr. Do meio da rua ouvia os gritos altos e nervosos da mulher 
chamando seu nome, e quando um vizinho abriu a janela, atraído 
pelos gritos de sua esposa, disparou ladeira afora. Corria ao lado 
dos muros do cemitério, que tantas vezes observava no seu caminho 
de ida e volta de casa, passou pelas praças, alcançou avenidas, não 
sabia para onde, nem sabia o por quê, mas precisava correr e fugir... 
Enquanto corria lembrava-se de sua vida, de sua infância, como num 
filme compassado com sua corrida, revia os momentos bons e ruins, 
e corria ainda mais... Sentia-se triste, confuso e corria... Sentia-se 
perdido e corria ainda mais... Correu, perdeu a noção do tempo, 
não sabia onde estava... Pensava e buscava... Num determinado 
instante parou e sentiu que era preciso voltar. Estava confuso e atordoado. 
A mesma força misteriosa que impulsionou sua fuga, agora o arrastava 
de volta. Não queria, mas sentia que precisava voltar e se encontrar. 
Enquanto corria de volta, pensava nesta estranha resistência física que 
não imaginava possuir e alegrou-se. Por um instante parou e perguntou
as horas para o moço parado no ponto de ônibus, que não respondeu e 
sequer moveu seu rosto para olhá-lo. Voltou a correr, pensou que devia 
estar com uma péssima aparência, pois quando indagou novamente que 
horas eram para dois rapazes que vinham em sentido contrário ao seu, 
também foi completamente ignorado, mas não ficou muito irritado, pois 
já estava quase chegando e ainda trazia em si, como causa maior, a 
angústia de encontrar a si mesmo. Correndo ainda, deduziu que já era 
quase manhã, a madrugada estava morrendo, pois os primeiros clarões 
no céu anunciavam o raiar do sol... Estava quase chegando... Estava 
voltando sem encontrar o que saíra para buscar. Ao se aproximar do 
cemitério que antecedia o quarteirão de sua casa, vislumbrou muitos 
vultos conhecidos e momentaneamente sentiu-se culpado. Sabia 
instintivamente que algo acontecera e justamente ele, sempre atento, 
zeloso e prestativo, não esteve ali para ajudar... Começou a perceber 
por que tinha corrido... Alguém havia morrido e ele havia fugido... 
No saguão examinou com o olhar todas as salas mortuárias e numa 
delas viu seus filhos abraçados e tristes ao lado de um ataúde, 
procurou pela esposa e nada encontrou... Sentiu um tremor profundo, 
mas armou-se de coragem e entrou na sala. E eis que viu a si mesmo 
deitado e imóvel dentro do ataúde, percebeu a palidez de seu corpo 
ladeado por flores coloridas, sentiu a delicadeza do fino véu a cobrir 
seu rosto, percebeu a presença da esposa chorosa sentada ao lado 
de outras flores, e num lapso instantâneo de tempo respirou 
profundamente... Finalmente encontrou a si mesmo e entendeu 
o que buscava... Estava em paz...

domingo, 30 de maio de 2010

Tatuagem


Embalem a noite
Encubram o dia
Teu será meu pranto
E tua a minha alegria

Prendam os ventos
Desfaçam a tempestade
Tuas serão as lembranças
E tua a minha saudade

Amordacem os cantos
Destrocem a poesia
Tuas serão minhas noites
Teus serão meus dias

Convertam o espaço
Aprisionem o tempo
Serás soberano
Em todo momento

És amor eterno e perfeito, 
Vestido em poema e flor,
Pois o infinito te tatuou 
Em fogo e amor 
Sobre meu peito...


CHEGADA

E quando tu chegas,
O sol brilha mais forte,
As partículas de luz
Pululam, pulam e dançam,
Na tua presença...

Então a dança da alegria,
Do amor e da felicidade,
Explode e se apresenta,
Feito bailarina em palco
E chão de estrelas...

E o dia ganha cor,
E a cor ganha sonho,
E o sonho ganha poesia
E a poesia ganha vida,
E a vida ganha eternidade...



segunda-feira, 17 de maio de 2010

São Paulo ainda é poesia...


São Paulo ainda é poesia...

A Virada Cultural em São Paulo não foi só de lazer, arte e cultura... Foi também virada de copos, de latas e latas de cerveja, de garrafas de vinho e de vodca arrebentadas e espalhadas pelas calçadas, fazendo com que a cidade recebesse em seu solo na madrugada de domingo, não só os costumeiros habitantes que fazem do chão da cidade seu colchão diário, mas também aqueles que pela primeira vez deitaram em suas calçadas, tombados pelo cansaço, pelo álcool e pelos excessos. Nos arredores da Avenida São João, o traje negro vestido pela maioria dos que por ali adormeceram, fazia com que as pessoas amontoadas umas sobre as outras, se assemelhassem a sacos de lixo empilhados pelas laterais das paredes e nos cantos das ruas. A cidade acolheu a todos, que indiferentes à sujeira, aos restos de comida, de vômitos e de urina, dormiram. O frio da madrugada não impediu-lhes o sono justo. Ânimos exaltados, discussões e empurrões espalhados por todos os cantos da cidade também fizeram parte da Virada, mas apesar disto tudo venceu a alegria espelhada nos rostos das pessoas cantando e dançando por toda a cidade; o calor da música aqueceu os corpos que se desvencilhavam das blusas e camisetas ignorando o frio da noite; venceu a pluralidade dos cantos e dos sons que encantaram os seres de todos os gostos e de todas as raças; venceu a diversidade das pessoas, das tendências e das liberdades; venceu a criatividade da acrobata rubra suspensa na noite de São Paulo espalhando “estrelas” brilhantes por sobre a cabeça e o sonho das pessoas; venceu a nostalgia chocalhando nos vagões do Trem das Onze, cantando Adoniran... A Virada não foi apenas o Trem das Onze, foi o Trem da noite inteira, o Trem da memória e das histórias, o Trem da poesia...

domingo, 9 de maio de 2010

Soberania


Soberania

Levanto-me e antes que a rotina diária me envolva
E, com seus dentes ávidos me destroce, lembro de ti...
E te dou Bom Dia, de forma que me pergunto
Se não serias minha maior e mais obstinada rotina.
E antes que o cinza da primeira fumaça de alcatrão
Se mescle aos pulmões e ao meu coração, penso em ti...
E divagando me questiono se não serias então,
O maior e o mais letal de todos os meus vícios.

Corro, paro e caminho na louca guerra do ser
E na luta diária entre o ter e o sobreviver
Vejo-me impregnada pelas tuas lembranças,
És soberano, em tudo o que penso e no que faço e,
Te sinto nos olhos e nas vozes do velho e da criança.
E me interrogo se o te esquecer não seria então
A maior e mais cruel batalha que tenho que enfrentar
Nesta selva feroz de uma existência vã e insana.

E quando anoiteço saturada pela tua saudade,
Envolta na memória de teu olhar e na poesia de teu nome,
Tão vívida é a tua imagem em minha mente,
Tão real é a tua presença nos vãos da nostalgia,
Que nem sei divisar o que é fantasia tampouco realidade,
Mas com a convicção que o teu existir ocasionou
Prenúncios da imensidão e a certeza do eterno.
E por fim, diária e docemente, dou-te Boa Noite e adormeço
Sem saber se subirei aos céus ou descerei ao inferno...


Trajetória de solidão


Cresceu ansiando pelo amor. Como menino-homem sentiu suas primeiras nuances e suas primeiras palpitações, aqui e acolá e numa menina flor descobriu a intensidade do sentimento que buscava, mas desencantou-se com as páginas do caminho da menina-flor-mulher.
E tanto foi seu desencanto que resolveu caminhar só, na sombra da menina-flor-fruto-mulher e caminhando encontrou novamente luzes do amor, piscando em vários pontos de sua estrada. E numa destas luzes encontrou um amor diferente, forte, profundo, sem flor, maduro distante de um tempo perdido nas memórias de vidas vividas, e mergulhou na seiva desse amor... Desencantou-se, faltava a flor da menina e então buscou-a... Perdeu-a... Voltou inexplicavelmente às profundezas do outro amor, mas novamente afastou-se e decidiu-se conscientemente pela solidão...
Escolha clara, consciente e racional... Viveu o tempo... Vez em quando recebia sopros do amor profundo, mas mesmo durante as ausências de sopros e letras, sua presença não lhe fazia falta, embora soubesse-lhe a existência e o fervor... Era tempo de vida, de buscas e experiências, tempo de andar. Sentia a força da vida a impulsionar-lhe os passos, bebeu das águas do centro da terra, colheu as flores de anjos, voou acima da chuva, caminhou pertinho do céu e junto da terra, andou em campos de paraíso, bebeu das letras e línguas dos homens, dos símbolos e imagens das máquinas, dos sons e cantos dos anjos, que transformavam o presente eterno num flash instantâneo do tempo, beijou das bocas doces e das amargas, amou de corpos suados, sonhou de pueril e doce inocência... E foi a ssim por todo o tempo alimentado por algo que perpassava o tempo, transpassava a carne e alimentava a alma.
Mas todo caminho tem fim, paradas, pousadas, e se foram as paradas, as estradas, o vivenciado ou as andanças, o certo é que subitamente sentiu-se cansado, e deu-se conta que estava faminto de algo que antes o alimentava e que já não sentia mais... Não conseguia definir o que sentia, faltava-lhe coragem, ânimo, vontade ou talvez simplesmente o desinteresse pelos andares tantos e colheitas fartas... O fato é que a sua solidão sentiu saudades e resolveu voltar e buscar a fonte... Encontrou apenas terra, uma lápide e algumas pedras geometricamente colocadas para adornar o ponto final do amor.


Solidão








Solidão

A solidão é animal astuto e faminto
Não importa se te cobres com um manto
Se estás sob os lençóis ou num convento
Ela te encontra em qualquer momento

Não importa se estás envolto pela multidão
Se estás só, bem ou mal acompanhado
Ela fará de ti meigo refém e servil escravo
Ignorando teu grito ou teu triste lamento

A solidão, fatalmente, vai te encontrar
Numa esquina insana e distraída
Num beco inconfundível e sem saída
Ou no cálice de uma festa divertida

Com seu faro de fera perspicaz
Ela se esconde em penumbra e sombra
E de nada adianta caminhar nas trevas
Se até na luz ela sempre te encontra

Sorrateira, ela te segue os passos
Ouve tua voz, teu grito ou teu sussurro
E te fareja de qualquer maneira
No eco surdo de teu peito escuro

Inútil fugir, lutar ou em vão debater-se
A solidão, impávida, vence a batalha
E impassível, ganha sempre todas as guerras
Transformando-se em teu véu e em tua mortalha



terça-feira, 6 de abril de 2010

Encanto


Encanto

Apenas encantamento
Do canto que leva o vento
Do sonho que num momento
Cria o encanto de ilusão
Romance mal começado
Do beijo não concretizado
Na falta do toque da mão
E o olho no olho ficou
Para outro tempo, outro lugar
Ou quem sabe, talvez
Para uma próxima dimensão
E o corpo no corpo esperou
O êxtase ser banhado
Pelo aroma e sabor do luar
No tempo do coração

Prenúncio do Amor


Prenúncio do Amor

Nem chegou a ser beijo
Apenas um roçar de lábios
Saliva doce de tentação
Um sussurro na alma
E murmúrio do coração
Toque de leve na boca
Medida certa para despertar
No corpo uma explosão
E o prenúncio de uma paixão

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Amor e os amores


O Amor e os amores


Existe um Amor, entre todos os amores,
Que não esmaece e nem desaparece
Nas brumas e na passagem do tempo
Que torna única, a magia de um instante
E reduz o infinito ao encanto de um momento

Existe um Amor que se eterniza
Em lembranças sempre presentes
Em emoções constantemente latentes
E que não se desfaz entre os dentes
Da louca e faminta engrenagem da vida

Um Amor que se materializa na alma
E sutilmente se espiritualiza no corpo
Que traz o sentir, o querer e o prazer
Um amor que é único e inconfundível
E no êxtase comunga o viver e o morrer

Um Amor que se agiganta e se agita
Às vezes adormece e outras vezes grita
Que seduz e flerta com a insanidade
Mas que existe, é real, dá sentido à realidade,
E mostra a luz e o caminho da eternidade

sexta-feira, 26 de março de 2010

Causa Mortis









Causa mortis


Morreu. Isto era um fato. Faltava definir-lhe a causa mortis. Não que alguém fosse ler ou se importar com esta definição, mas era necessário posto que em sua certidão de óbito haveria de constar uma causa, como se a morte, legítima dona da vida, que dela se apropria a seu bel prazer, necessitasse mesmo de algum motivo para justificar seus atos. Os diagnósticos foram muitos, tanto de curiosos próximos ou nem tanto, como do médico que examinava displicente o corpo gélido e pálido. Alguns disseram de um profundo amor outonal, que impregnou-se-lhe no corpo, alma e coração, não lhe dando paz nem de dia nem de noite, nem em sonhos nem em vigília, tornando as lembranças tão ávidas e vivas quanto a saudade voraz e faminta de seu amor, ambas igualmente suicidas, que se alimentavam de todas suas forças vitais sem compreender que isso significava também o seu fim. Alguém cochichou que amor é veneno sutil e fatal, quando ingerido pela alma que faz dele a causa maior e a única razão do existir. Amor nunca mata, que isso é coisa de loucos e poetas que inventam histórias de se morrer de amor, a iludir os tolos, disseram outros, e entre falas e murmúrios abriram-lhe o corpo à procura dos causadores daquela que se impunha soberana a quaisquer causas. Percorreram todas as suas cavidades e órgãos, que inertes não ofereciam nenhuma resistência à procura das possíveis causas, indiferentes a toda e qualquer mão. Examinaram-lhe com a curiosidade incrédula e mórbida, típica dos seres humanos, quando não entendem os motivos das coisas comuns que acontecem às pessoas comuns. Veio por fim o veredicto. Morrera de indigestão. A indigestão que se embota nas veias, empelotando todas as palavras que deveriam ser ditas e que nunca foram pronunciadas; a indigestão que petrifica os sentimentos e os transforma lentamente em pedra, e que entope as artérias por onde o sonho deveria fluir livremente. Morreu de uma indigestão tão séria, daquela que faz da esperança bolhas de vazio a sufocar os pulmões impedindo a respiração da vida, daquela causada pela extrema lucidez que permite ver além das míseras emoções camufladas, a verdadeira realidade da ausência de sentimentos verdadeiros, que viu nos olhos das almas daqueles que lhe pousaram o olhar. Morreu de indigestão profunda e simples, do simples fato de existir a vida e de se ter que diariamente beber de sua fonte e de se ingerir pacientemente sua cruel e inerente solidão. Morreu de indigestão. Indigestão de vida


(Publicado pela CBJE - Março/2010 - Contos de Outono)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Favela

Favela

Casas e casas grudadas
Dependuradas
Asas fechadas
Bocas abertas
Como aves num poleiro

Casas e casas apertadas
Caminhos tortos
Desajeitados
Vielas serpenteadas
Subidas a um topo sem cruzeiro

Casas e casas apinhocadas
Incrustadas em pedra
Monocromáticas por inteiro
Vistas do céu se assemelham
A um imenso e triste formigueiro

segunda-feira, 22 de março de 2010

Cotidiano


Cotidiano


Vivo no presente
O tempo me projeta para o futuro
Mas respiro presa ao passado
Renovo as máscaras que uso
Mas minha essência permanece inalterada
A rotina acelerada me atira adiante
Mas continuo atrelada ao ontem
Minha bagagem aumenta
Na exata proporção em que me esvazio
O ritmo da vida se acelera
E cada vez mais afasto-me de mim mesma
Tudo isso porque o tempo do mundo
Não é o tempo do meu coração!

Paladino


Paladino

Cavaleiro solitário e errante
Teu corcel já nao cavalga
Através de campinas distantes
Na direção do topo do mundo
Em busca do sonho encantado
Nos campos do mundo real
Hoje já não cavalgas
És homem alado sem céu
Sepultado vivo no mausoléu
De uma existência virtual
Mas continuas solitário
Na busca de teu mágico graal

O tempo e o amor


O tempo e o amor

Existe um amor, entre todos os amores,
Que não esmaece e nem desaparece
Nas brumas e na passagem do tempo
Existe um amor que se eterniza
Em lembranças sempre presentes
Em emoções sempre latentes
E que não se desfaz entre os dentes
Da louca e faminta engrenagem da vida
Um amor que se agiganta e se agita
Às vezes adormece e outras vezes grita
Que seduz e flerta com a insanidade
Mas que é real e dá sentido a realidade
E mostra a luz e o caminho da eternidade

Amores


Amores

Amamos com a mente, o corpo e o coração
Amamos pequenos e grandes amores
Aqueles que amam apenas com a mente
Ou simplesmente com o corpo
Constantemente mudam de amores
Porque a mente se satisfaz
E o corpo rapidamente se sacia
São os pequenos amores...
Mas o coração não se cansa nunca
A alma é perpétua e infinita
E esses amarão eternamente
São os grandes amores...

Jeito


Jeito

Ama-me assim, do teu jeito,
Que todo jeito é jeito,
E não há jeito certo de amor
Ama-me assim do teu jeito,
Que teu é o jeito perfeito
Que quer o meu coração
Ama-me assim, do teu jeito
Mas também permita que eu
Do meu jeito, possa às vezes,
Passear por todo teu corpo,
Caminhar pela tua alma,
Adentrar em teu coração
Suave e sensualmente,
E com amor e muito jeito,
Penetrar em tua solidão.

Macaco não tem insônia

Macaco não tem insônia

Lá pelas tantas, depois de desligar o PC, alimentar os gatos, conferir portas, banhar-se, escovar os dentes, apagar luzes e realizar todo o ritual que antecede o dormir, deitou-se.
Seu corpo cansado esticou-se e enrolou-se na cama por diversas vezes, virou-se, revirou-se e nada de conciliar o sono. Relaxou, meditou, até rezou e nada! O sono não lhe dava o ar da graça. Resolveu contar carneirinhos e assim feito criança, quem sabe, dormiria. Imaginou-os todos branquinhos, peludos, alegres, pulando um após o outro, vindos de um lado misterioso de sua mente, e saltando para o outro lado, não menos desconhecido. E contava-os... Às vezes perdia a conta e começava tudo outra vez... Um, dois, três, e eis que de repente um chimpanzé saltou por entre os alvos carneirinhos! Levou um susto! Não acreditava no que acabara de ver, se é que se podia chamar de ver, o que sua mente criava com os olhos fechados, bem dentro de sua cabeça. Um chimpanzé! Atrevido! Como foi possível semelhante fato? Afinal ele é quem criava e contava os carneirinhos... Como pôde um chimpanzé, aparecer de forma tão inusitada por entre sua criação?
Abriu os olhos, pestanejou, será que dormira por alguns instantes e sonhara? Pensou... Cismou...Resolveu fechar os olhos, voltar a contar carneiros e tentar adormecer. Dito e feito. Um, dois, três... Branquinhos... Dezenove... Alegres... Trinta e cinco... De novo! O chimpanzé saltando junto aos carneiros! Não é possível! Inacreditável! Mas desta vez o chimpanzé parou, e bem do centro de sua própria cabeça olhou-o fixamente como a indagar, com lampejos de raiva e indignação, com que direito ele interrompia seu salto. Coração disparou. Pensou estar enlouquecendo! Não imaginou chimpanzés entre cordeiros! Estaria tendo alucinações? Não tinha mais controle sobre o que pensava! E o olhar... O olhar do chimpanzé! Olhar furioso de quem é interrompido durante um sério e importante trabalho. Olhar inquisidor daquele que coberto de certeza, posse e razão, questiona o intruso deixando-lhe a sensação de invasor culpado e desprotegido. Não sabia o que fazer. Abriu os olhos. Sentou-se na cama, coçou a barba e a cabeça, Limpou o suor que lhe escorria da testa. Deitou-se novamente, respirou fundo, sonhara pensou novamente, certamente sonhara o mesmo sonho. Muitos disseram já ter vivido semelhante experiência. Não estava enlouquecendo, decerto que não! Mas não entendia como um chimpanzé intrometido infiltrava-se entre seus carneiros sem a sua permissão. Nem gostava de macacos!
Resolveu tentar dormir novamente e teimoso que era, decidiu contar de novo seus carneiros, e desta vez nenhum chimpanzé iria estragar-lhe a contagem, controlaria sua mente e sua imaginação... Um, dois, três... Suaves e mansos... Vinte e quatro... Despreocupados feito crianças... Quarenta e sete... Mecânicos feito maquinário de relógio antigo... Não conseguia dormir... Perdeu a conta... Começou tudo novamente... Não conseguia dormir... Um, dois, três... Descreviam um arco perfeito ao pular de um lado para o outro de sua mente... Vinte e dois... Todos iguais, perfeitos, assim eram os seus carneirinhos... Cinquenta e dois... O chimpanzé! Ele de novo! Não acreditava! Coração aos pulos! O chimpanzé parou... O mesmo olhar furioso... O chimpanzé, olhar fulminante e fixo, lentamente aproximou-se e num lapso de segundo desfechou-lhe um grande soco no queixo... Nocaute! Adormeceu profundamente...

Expectativa

Expectativa

E...
Se o prazer nasce no cérebro,
Toca meu corpo com carinho,
Com especial e sensual sensibilidade,
Para que, inebriado, meu cérebro possa
Devolver-te em gozo e prazer
Todo o potencial de tua meiguice...

E...
Se o querer é pela mente assimilado,
Toca meu coração com nuances
De cor e emoção, com afeto e carinho,
Para que minha razão te perceba
E, emocionada, minha mente possa,
Quedar-se aos teus pés com tanta paixão,
E querer-te mais que a si mesma

E...
Se o amor é pela alma eternizado,
Conduz então, meu ser com plenitude,
Encaminhe-me para o sol, faz-me luz,
Com amor e paixão, com querer e vontade,
Para que meu espírito te prove,
Te conheça, te deseje e te queira amar,
Por toda a infinita eternidade...

Obsessão


Obsessão

Deixa eu ser tua Dulcinéia,
Amar-te em loucos anseios,
Ou ser tua branca Isolda,
A navegar em teus cabelos,
Deixa eu ser tua gueixa,
Fazer amor ao sol nascente,
E dançar por entre teus pelos.
Deixa eu ser tua Julieta,
Tua Inês, tua Heloísa,
Ser tua amante ou tua poetisa,
E se nada disto te encanta,
Deixa ao menos, por instantes,
Aos olhos do povo que ri,
Deixa que eu seja apenas,
Simplesmente tua Geni...

O nó e o laço


O nó e o laço

Laços unem...
Nós prendem e amarram...
É o nó e não o laço,
Que amarra a pedra
Em teu pescoço

É o nó e não o laço
Que te carrega 

Para o fundo
Do lodo e do poço...
(Foto de George Portz)

Solidão



Solidão

A solidão sempre fara de mim,
Sem remorso e sem punição,
Sua melhor e mais fiel serva,
Pois é dela o sopro de minh'alma
E o pulsar de meu coração...



Memória


Memória

Na memória
O tempo para, congela
E se torna eterno...
Na memória
A mente eterniza o momento,
E um instante é infinito...
A mágica do encontro é possível
A distância desaparece
E o estar junto é tangível...
Na memória Intenções são imortais
Atitudes são perpétuas
E o sonho é a luz do pensamento...

Mergulho

Flutuas assim, leve e livre,
Bailando nas águas do viver
Mergulhando no rio da vida
E eu, sentada em suas margens,
Limito-me a observar o teu bailado
A traiçoeira, ágil e forte correnteza
Em que, certamente, eu me afogaria
Não te impõe nenhum empecilho,
Pois és muito, muito, mais do que ela
Tens no amor, a fonte de tua força
Deslizas soberana, num vai e vem confiante
Como se foras uma canoa a dormir
No braços de um calmo e terno lago,
Suavemente banhado pela luz do luar
Às vezes, coloco lentamente meus pés
Nas águas desse rio e seu movimento
Me entontece e sinto a corrente viva
A te carregar para os mares do sonho
Não sou peixe... Nem sei nadar...
Não bebo da tua fonte, para poder voar...
Sentada nas bordas do rio de tua vida
Meus olhos, apenas, limitam-se a te olhar
E ajudam a aumentar o volume
Das águas que o rio carrega
Para dentro do amplo ventre do mar...

Existência

Existência

E não existe um só dia
Em que tua boca não me sorria
Na tela estática de minha memória
E não existe um só dia
Que tua ausência não provoque
Uma lágrima a me regar o olhar
Como a nutri-lo para ver a vida
Nem existe uma noite sequer
Em que eu não te deseje boa noite
Na cama vazia de meus pensamentos
E não existe nenhum momento
Em que teu ser não influencie
Meu falar ou o meu silêncio
Nem existem frases, versos e escritos
Que tua existência não inspire
Aquilo que será e o que já foi escrito
Vivo lembranças e retalho o tempo
Penso na vida, inexorável,
Questiono a lua, inexplicável,
Vislumbro a morte, inevitável,
Contemplo o sol vivo e distante,
Despretensioso aquecendo e dando vida, 
Doando luz à relva verde e esfuziante,
E a mim, relva seca, insignificante...